domingo, 26 de janeiro de 2014

PADRE LIRA, A MARCA DE UM EDUCADOR. O grande mestre está prestes a completar 95 anos, confira a trajetória do lendário sacerdote contada por Marcos Damasceno

Padre Lira
texto:Marcos Damasceno

“Voltei para ficar. Tenho vontade de morrer aqui"

Padre Lira completa 82 anos de Magistério. Prestes a completar 95 anos de idade. Começou como professor em 1932, aos 13 anos de idade, ensinando as Cartas do ABC aos filhos dos vaqueiros de sua fazenda e das vizinhas. 

Essas oito décadas de Magistério se deu em três momentos de sua história: o primeiro foi em Bom Jesus do Gurgueia-PI, sua terra natal; o segundo em São Raimundo Nonato-PI, a terra que foi apadrinhado e que apadrinhou-a; e o terceiro em Curral Novo (Fundação Ruralista), a terra que é pai. Sobre Padre Lira falo com o respeito que minha educação familiar alicerçou... 


Cresci vendo-o realizar tamanho trabalho social, ministrar as mais republicanas lições de cidadania. Exerceu a missão como um apóstolo, um missionário que fez da sua missão o mais abnegado e sublime sacerdócio. Para encontrá-lo é preciso um encontro com o universo da caridade. A grandeza de um padre, encravado nos confins do Sertão, que se desdobrava para cumpria sua missão. 

Bom Jesus do Gurgueia-PI: 

Nasceu em 1919, em Bom Jesus do Gurgueia (Piauí). Órfão aos sete anos de idade. Sua vida ganhou significado através da Educação, sua paixão e missão, assinalada com a marca de um educador obstinado. Com 13 anos de idade tornou-se professor na fazenda do seu pai, já falecido. Eram tempos da educação rural. Ensinava as Cartas do ABC aos filhos dos vaqueiros das redondezas. A grande lição social é que somente os filhos dos fazendeiros estudavam, até então. Isso é pra se ter uma noção do seu compromisso social, a sua maior marca nessas nove décadas de vida. 

São Raimundo Nonato-PI 

Quando chegou ao município em 1932, possuía 3000 habitantes apenas. Cursou o Ensino Primário, da época, no Seminário. Dava aulas de Catecismo na capela da Aldeia, ensinando às crianças o Sinal da Cruz e Ave Maria. Seguiu para o Seminário Menor da Bahia, onde estudou o então Ensino Secundário. Lá ensinava solfejo a alguns colegas. Aprendeu música com Moisés, voluntário espanhol que morava em São Raimundo Nonato (Piauí), a convite de Dom Inocêncio. 

Em Fortaleza cursou Teologia, onde durante 4 anos estudou com muito afinco. Ensinava religião e música no Seminário Menor. De volta a São Raimundo Nonato (Piauí), ainda subdiácono, foi professor da Escola São Raimundo Nonato, juntamente com o Padre Vega e o grande educador Padre Nestor Lima, que era o diretor. 

O próximo passo foi ser professor do Ginásio Dom Inocêncio, instituição que ajudou a construir, inclusive doando uma quantia significativa que recebera como herança de seus pais. Ele recorda as palavras do visionário Júlio Paixão, na ocasião da criação do Ginásio: “Os senhores se adiantaram 50 anos” – dirigindo-se aos três: Padre Nestor Lima, Padre Lira e Padre Vega. Foi dele, enquanto prefeito de São Raimundo Nonato (Piauí), a iniciativa de o município doar a atual sede do Colégio das Irmãs. 

Padre Lira sempre foi inteligente, competente e habilidoso para questões públicas. Dom Inocêncio por diversas vezes, confiou-lhe várias missões e tramitações da Igreja. A exemplo disso, o pleito junto ao governo federal da doação da atual residência das Irmãs Mercedárias. Também a instituição da União Operária em São Raimundo Nonato, onde promoveu cursos gratuitos de alfabetização, jardim da infância, comemorações cívicas, etc. Essas histórias ocorreram há quase 70 anos.  

São Paulo-SP

A criação da Fundação Ruralista: Em 1959, no início do ano, Padre Lira pede licença à Igreja, por 4 anos, para ir à cidade de São Paulo-SP, em busca de recursos para seu trabalho educacional. Ao chegar a capital paulista, foi direto para o Convento dos Padres Mercedários. Receberam-lhe muito bem, mas a casa estava superlotada. Muda-se para o Edifício Martinelli, no centro, hospedando-se num apartamento emprestado por um parente. Sofre muitas dificuldades, por inúmeras vezes Padre Lira passa fome. Começa a botar o plano em prática. 

Com algumas reservas juntadas registra a constituição da Fundação Ruralista (ou Centro Rural), a 11 de novembro de 1958; a instituição passa a ter formalidade jurídica. A meta, então, seria conseguir um estabelecimento para seu funcionamento. O lugar já estava na sua mente. Conhece Padre Garcez, Capelão da Igreja Nossa Senhora do Rosário, que apresenta-lhe a Condessa Matarazzo (matriarca de uma família de empresários). 

Também Padre Garcez apresenta-lhe duas freiras da Congregação Filippini, que colaboram bastante com seu trabalho. Fica em São Paulo-SP até 1962. Sua lembrança: “Os quatro anos (1959-1962) vividos no Martinelli são uma feliz lembrança, embora houvesse momentos muito duros; porque passei fome, sei hoje o que a fome significa”. (Um Homem Contra a Seca/Peggie Benton: 1973). 

 Curral Novo

Seu tio Alcibíades, funcionário público aposentado no Rio de Janeiro-RJ, viúvo, resolve apoiá-lo. Do sobrinho, o pedido: “Vá para Curral Novo, percorra as redondezas e veja se consegue um pedaço de terra à venda”. (Um Homem Contra a Seca/Peggie Benton: 1973). Alcibíades foi para Petrolina-PE, onde compra uma casa. Daí começa sua viagem, como um bandeirante, rumo ao povoado Curral Novo, local escolhido para sediar a Fundação Ruralista. Encontra um sítio à venda, da Dona Furtuosa, um pouco distante de Curral Novo, em torno de 9 km. A dona resolvera vender a gleba. 

Padre Lira autoriza a compra, depois que recebe a notícia do tio. O lugar não tinha nome. Alcibíades fica arranchado durante seis meses num umbuzeiro. - Distrito de Curral Novo (Fundação Ruralista): Curral Novo era povoado, depois passou a ser Distrito por causa da distância de São Raimundo Nonato (100 km). Possuía na ocasião 12 casas e era habitado por 47 pessoas. 

Chegou lá há exatos 50 anos; o ano era, portanto, 1963. Quando chegou o povo já o conhecia, e comemorou: “Agora vai ter escola aqui”. Além da lição escolar, existia a lição de cidadania. Nosso mestre desenvolveu um heroico trabalho educacional. Padre Lira viaja num caminhão adquirido e muitas doações. Chega a janeiro de 1963, ao povoado Curral Novo. É recebido pelo extraordinário João de Sousa Rodrigues. 

João de Sousa Rodrigues Janjão (1913-2001)

Homem influente e de grande hospitalidade. Primo do meu avô. Janjão dá total apoio ao ilustre visitante, seu velho amigo. Diante do comunicado de sua decisão em morar em nossa terra, oferece uma casa para o padre morar; e ainda uma moça que passa a lhe secretariar: Virgínia Oliveira, sobrinha de sua esposa Mariêta e neta de Tiago Oliveira. Inicia-se a construção da sede da Fundação Ruralista. 

Ao falar sobre a proposta de abrir escolas, de início, notadamente nas regiões mais isoladas, houve falta de entusiasmo por parte de muitos. Existiu uma resistência de parte da sociedade. Surgiu o bordão: “A Educação não compensa. Estudar pra quê? Os filhos têm é que ajudar na roça!” Da parte dele, houve acolhimento social. A realidade, aos poucos, vai se revelando e ele se impondo diante dela. O espírito missionário sempre fala mais alto. Tempo de gestação de novas mentalidades, um novo saber. Algo de novo vai fecundando nas mentes das pessoas. 

Fundação Ruralista

As escolas da Fundação Ruralista começam a funcionar a 01 de junho de 1965, com 72 alunos na sua própria sede, e 40 crianças na escola das Cacimbas. Sendo a estrutura física precária, não existia no momento nenhum prédio escolar; as escolas se resumiam a latadas, sem mesa para os professores e sem quadro para escrever, com alunos sentados no chão ou em cepos de madeira. 

Disse emocionado, Padre Lira: “Desejo que a escola seja para eles muito mais do que uma simples tentativa de instrução; que lhes dê tudo quanto lhes falta em casa: calor humano, recreação, conforto, música e até comida”. (Um Homem Contra a Seca/Peggie Benton: 1973, pág. 41). Educacionalmente, atuou em duas frentes: acabar com a evasão escolar e com o analfabetismo. 

Ambas as metas ele conseguiu; naquela época todas as crianças estavam nas escolas estudando, assim como o índice de analfabetismo naquelas gerações zerou. Também foi dele o primeiro grito: “O Piauí existe, e merece atenção!” Acreditou no valor de sua luta social, na junção do povo e na união de esforços para um bem comum: a Educação. Convenceu-se de que a Educação seria o único caminho para a superação da situação de extrema pobreza em que vivia boa parte das pessoas. 

Duas décadas depois Fundação Ruralista possuía 23 escolas bem administradas, onde estudavam 3.000 alunos; eu era um deles. Todo esse sistema educacional funcionava com recursos que Padre Lira conseguia com doações, parcerias e órgãos governamentais. Na década de 80 foi erguido o monumental e imponente Ginásio de Dom Inocêncio, onde cursei o Ensino Fundamental, considerado o maior do sertão piauiense.

Eu estudei nas escolas da Fundação Ruralista; nelas cursei o Ensino Fundamental. Tenho orgulho disso, muito do que sou devo a esse aprendizado. A edificação educacional de Padre Lira foi fundamentada no princípio de Confúcio, educador chinês, de ir além da lição escolar e alcançar-se a lição de cidadania, sabendo assim o educando, harmonizar-se com a natureza e com a sociedade; e não somente acumulando conhecimento, mas desenvolvendo o caráter e o senso de humanidade. 

Dom Inocêncio-PI 

Dom Inocêncio-PI passou a ser conhecido internacionalmente como o “Município Educação”. Nacionalmente, o programa Fantástico, da TV Globo, dedicou um especial ao nosso município, mostrando para o mundo o exemplo de sucesso educacional de Padre Lira. A saber: por inúmeras vezes a Fundação Ruralista recebeu a visita de pesquisadores e educadores, e até de projetistas do MEC, querendo conhecer a experiência educacional desenvolvida aqui; também com o interesse de copiar um bom exemplo de Educação. Na atualidade percebemos algumas medidas educacionais, defendidas como grandes iniciativas nacionais, que há mais 50 anos já eram desenvolvidas por Padre Lira no Sertão do Piauí. 

Temos orgulho dessa marca, desse pôster, dessa história. É preciso que continuemos a caminhada. Um novo projeto educacional deve ser gestado. Aí se faz o grande propósito: não deixar essa tradição cair; não deixar essa história se desconstruir. A luta educacional, e social, de Padre Lira valeu a pena. Muito importante para o nosso desenvolvimento (pessoal, familiar, social). Seu legado foi construído na tríade PROFESSOR-FAMÍLIA-ALUNO. Ele destaca que a família é o principal sustentáculo desse trinômio; é quem assegura a grandeza da Educação. 

A família é quem deve educar; a chamada educação cívica. A escola ensina conhecimento, sendo complemento dessa educação. O aluno segue o exemplo e a orientação dos dois primeiros termos.  

Retorno a São Raimundo Nonato-PI

 Atualmente mora em São Raimundo Nonato-PI, gozando de merecido descanso. Certa ocasião, numa dessas nossas conversas, perguntei-lhe por que resolvera retornar a São Raimundo Nonato, depois de quase 50 anos em Fundação Ruralista? 

Ele respondeu-me: “Voltei para ficar. Tenho vontade de morrer aqui. Este desejo, além de ser sentido humano, tem um significado simbólico e afetivo, histórico e ocupacional, sacerdotal e residencial”. Guarda como marca indelével, a importância marcada de sua infância e juventude lá, cuja vida que se iniciou foi de luta constante desde sua orfandade de pai e de mãe, aos sete anos de idade. Uma pessoa do povo não se finda jamais; a memória popular conserva-a viva. 

Finda-se mesmo é quem não deixa nada à posteridade, à construção da sociedade. Finda-se quem não deixa caminhos para as gerações futuras seguirem. Quem deixa um legado não finda jamais. Ele é a maior bandeira, fonte de toda glória e inspiração de progresso. Possui um célebre nome pra história do Sertão; mundo rural que o viu batalhar. Seu nome é um monumento. Uma figura exponencial – convenhamos. Memória dos confins, dos rincões brasileiros, sertão de grandes gênios. 

Legado gigantesco

O império cultural que construiu, até aqui, toma dimensões gigantescas. Sem sombra de dúvidas, ele é o maior; o mais ilustre filho nos caminhos de sua terra. Ele é um forte entre nós, viventes desta terra. E uma fortaleza de sabedoria. Incansável semeador de saber. Aos quase 94 anos de idade, ler é um exercício importante na sua vida. Recebe visitas de pessoas que querem desfrutar de sua sábia vivência. Padre Lira é um dos maiores patrimônios da Educação do Brasil, em matéria de iniciativa particular. Em nossa terra, ele edificou uma grande obra social. Muito do que somos devemos a ele. Obrigado mestre! Gratidão eterna... 

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